RELACIONADOS





"Feline"

24 de fevereiro de 2019

@ddlovato


Before

Talvez a culpa seja realmente minha mesmo, de ser alguém que sempre sente tudo, e ainda deixa tantas faíscas em lugares no meu peito desconhecidos por outrem.

Eu escutei umas coisas fodas sobre mim, sabe, de uma pessoa que estimo muito e eu nunca imaginei que pessoa x pensasse todas aquelas coisas e de tais formas. O que dói mais é ouvir isso tudo de uma pessoa que eu achava que me conhecia. Eu queria arrumar uma desculpa para as coisas que ela disse, sabe, algo como pôr a culpa no extremo ruim que todo mundo tem... Mas ela permanece invicta, de cabeça feita, e eu não posso fazer nada para mudar o que ela pensa sobre mim, porque, na verdade, é tudo sobre como eu realmente sou e como as pessoas me interpretam.

É como o que você interpreta pode não ser o que a pessoa quis dizer, ou como a releitura de um mesmo livro... nunca é a mesma coisa.

A culpa é minha por simplesmente querer algo que me faça sentir viva, como uma estrela em chamas no meio da noite, ardente e brilhante. Eu só quero sentir algo, afinal. Esse é o meu desespero e a minha busca diária e eterna: algo que me faça sentir algo real, forte e poderoso. Algo que talvez eu nunca encontre em ninguém, somente em mim mesma.

Porque da mesma forma que só eu sei o que fazer quando meu calo aperta, quando o corpo pede arrego e quando o coração não aguenta o aperto. Eu também sou a única que sabe o gatilho do meu êxtase e glória, isso não se trata de ninguém, apenas de mim, o que eu deixo que as pessoas me causem, o que eu sinto e o quanto deixo que qualquer coisa me abale ou me abrace... Somente eu sei, ninguém mais.

Eu não costumo me importar com o que as pessoas pensam de mim, nem pedir desculpas por eu ser como sou – assim, deeper – porque eu não posso pedir desculpas por ser eu mesma e a pessoa não saber lidar com isso.

Acho que sou para quem tem coragem. Quem para e me encara. Alguém que eu não preciso colocar a mão no queixo e erguer o rosto para que ela olhe dentro dos meus olhos e sinta as chamas na minha pupila dilatada, alguém que não tenha medo, nem fuja. Alguém que permaneça, mesmo depois de conhecer o meu extremo ruim também, porque ao contrário do que acham, eu não sou perfeita.

Eu também erro, e erro feio. Desmonto, quebro, perco uns pedaços, me machuco, me magoo, eu sou humana, sabe. Mesmo que x continue achando que eu me pinto e me escrevo como “a tal”, idolatrada e amada por todos, inesquecível e inquebrável, somente eu sei que, finalmente, eu nem arranho a superfície disso.

Belo exemplo é essa merda que estou escrevendo querendo achar uma resposta para isso tudo que tá no meu peito e só eu sei o quanto dói e machuca... o que uma simples pessoa pode fazer com você.


Inside

Entrei no banheiro da boate, já meio altinha, e me olhei no espelho, passando as mãos na extensão no meu cabelo, ajeitando os fiozinhos que estavam exaltados, embora o jeito do meu cabelo combine perfeitamente com minha personalidade, não é nada sobre eu e meus sentimentos saltitantes essa noite.

Retoco o batom e tiro o excesso do brilho com o papel-toalha, dobro o papel com a minha marca e coloco-a dentro da carteira, na minha bolsa.

Me olho no espelho de corpo e percebo como a minha postura e todo o resto está no seu devido lugar, seja a saia preta com duas fendas na frente, meus dedinhos dos pés espremidos no salto vermelho, minha gargantilha dourada, as pedrinhas do meu brinco ou mesmo os meus sentimentos... Estão todos alinhados, não tem nada fora do lugar.

Quando eu decidi sair de casa hoje, eu realmente saí de mim um pouco, eu desliguei, porque ser intensa e entregue da forma que eu sou, pode me deixar em pedacinhos, às vezes, e eu precisava ficar um pouco off de mim.

Eu vesti a minha pinta de inquebrável e está tudo bem quando eu estou completamente vestida, assim, porque ninguém nunca imaginaria... enquanto estou dançando na pista, viajando na música, fora de órbita e sentindo as luzes vermelhas quente no meu corpo, que eu estaria como estou. E não quero falar sobre isso agora, porque eu não quero quebrar aqui.

Dou mais uma checada no batom, para garantir que não deixei nenhum tracinho fora do lugar, encaro meus olhos castanhos, coloco meu melhor sorriso e volto para a pista.


Out

Assim que entrou na boate, foi pega de jeito pela música how deep is your love, não demorou muito até ela estar dançando, de olhos fechados, com seu corpo inteirinho expressando cada pequeno traço.

É inegável que ela é alguém que vai ser notada, pelo seu jeito espontâneo e seu sorriso que parece iluminar todo o lugar, o feeling que ela tem com a noite, a música, as luzes da boate... parece tão mais certo quando ela está.

Seja sentada no bar, com as pernas cruzadas e seu salto fino desenhando mais a sua panturrilha, enquanto ri alto e bebe Martini, ou dançando no meio da multidão de pessoas, como se brincasse com seus anos e suas lembranças... mesmo que a gente nunca saiba, é só que o jeito que ela se move parece estar seduzindo suas lembranças, apenas para expulsá-las na próxima sequência de movimentos.

Uma das coisas mais verdadeiras sobre as pessoas é que nós, realmente, não sabemos o que se passa dentro de cada uma, nós nunca imaginamos.

É notório que ela é linda, perfectly imperfect. E isso tudo é muito sobre ela ser a estrela da própria história. Ou sobre eu apenas estar imaginando e criando coisas baseado no que eu vejo.

Então, ela é linda, ponto.
Tem um sorriso gostoso que me faz querer estar perto e nunca querer ir embora. Ponto. E isso é somente sobre o seu sorriso, a gente nunca sabe como funciona o resto, não é?

Se fosse para tornar isso um pouco mais sobre mim e o que ela me causa, eu me justificaria falando de como os detalhes me cativam e como os detalhes dela são tão perceptíveis e receptíveis.

Seu jeito de menina brincalhona, suas mãos que não param de dançar junto com seu corpo, acompanhando a música, como ela se entrega e canta quando toca alguma música muito boa e que, provavelmente, ela se identifica...

Por exemplo, eu concordaria se ela me falasse que a música how deep is your love a define, porque fala sobre intensidade e amor, e essas duas palavras parecem combinar com ela, como o ritmo da música também e imagino como deve ser sua voz cantando... não sei, deve combinar.

A visão de quem está de fora é sempre assim: alguém que sabe pouco imaginando muito.
E eu o faço, mesmo assim. Porque eu gostei dela.
Quem sabe, em algum momento, eu deixo de imaginar e passo a conhecer...
Será que eu teria coragem?
E seus olhos... será que eu os encararia ou precisaria de espelhos?


After

Pronto. Eu assumo que sou antropocêntrica. Fim. Quero dizer: ponto.
Refleti muito sobre isso enquanto removia a maquiagem e vi as manchas pretas da máscara de cílios e lápis de olho saírem com a água.

Cheguei em casa agradecendo a Deus por não ter me deixado desmoronar, cair ou quebrar qualquer coisa que fosse, dentro ou fora de mim.

Tirei o salto, sentei, por dois minutos, na latrina e fiz um carinho nos meus pés, pensando em como a sensação de desconstrução e sair da personagem é tão revigorante para mim, porque mesmo que me sinta feliz em poder sair e ficar um pouco off de mim mesma, eu gosto de saber que ainda sou eu aqui, sozinha com todos os meus feelings, e, às vezes, é muito difícil, também sei que não é só para mim ou somente sobre mim...

Mas eu penso na minha realidade, em quem eu sou e o que posso fazer para mudar um pouco o mundo, dentro do meu limite, entende.

Eu conheço sobre muitos problemas, sejam os sociais, físicos, morais, sentimentais... penso sobre a dor do passarinho que vi hoje e estava com a asa quebrada, ou como uma flor deixa de estar viva quando a arranco e ainda assim ela continua teimosa e bonita, penso sobre as perdas infinitas e variáveis que existem e eu não conheço nem metade delas, ou como pensar muito na morte da bezerra faz com que eu acabe criando um vínculo do tipo eu-queria-ter-tido-a-chance-de-fazer-alguma-coisa, mas você entende que não tenho controle sobre nenhuma dessas coisas? Elas acontecem, completamente fora do meu contexto. E eu não posso fazer nada para mudar isso.

Isso é sobre abraçar a minha realidade, fazer algo por quem eu sou, o meio em que vivo e as pessoas a minha volta. Como aquela garota que estava se segurando para não chorar, ou o senhorzinho que estava sozinho com várias sacolas pesadas no ônibus, ou o gatinho que estava ansioso em ter um lugar, ou alguém que precisava ser escutado, ou sobre sentar, conversar e resolver algum mal entendido, ou se tirar do contexto da história das outras pessoas e simplesmente aceitar as escolhas que cada um de nós fazemos, como eu tenho feito as minhas.

Eu não queria estar escrevendo um texto em que eu preciso provar que eu faço o que posso dentro da minha realidade e não sou tão egoísta quanto me julgam. Não entendo porquê me doeu tanto assim tal julgamento, sendo que o que importa é que eu sei exatamente quem sou, verdadeiramente.

Então, se eu escrevo muito sobre mim é porque eu sou a única coisa que conheço bem. E se isso me faz ser alguém egocêntrico ou antropocêntrico, tudo bem. Mesmo. Eu aceito o adjetivo. Porque eu gosto de falar do que eu sei, o que eu sinto, e das coisas que lembro, e quem eu sou é a única coisa que eu tenho autonomia.

Também não gosto de quando eu escrevo pensando, imaginando, criando cenas, pensando em como acho que as coisas deveriam ser, acontecer, como deveria ser tão simples sentir e demostrar... porque isso se trata somente de mim e da minha visão de ver o mundo, e não há ninguém como eu.

Aceito, inclusive, que você encare essa última frase com ambiguidade, pode ser o meu ego e instinto felina falando um pouco por mim, ou somente estou assumindo uma verdade que é imutável: eu sou única e não posso esperar que as pessoas, pensem e sintam da mesma forma e intensidade que eu, ou sejam corajosas em admitir o que sentem, seja na dor ou no amor.

O fato de eu ser corajosa não quer dizer que eu não possa encorajar as outras pessoas a me olharem e me sentirem, exatamente como eu tenho feito nos últimos nove anos.

E o fato de eu sentir tudo e abraçar o meu pequeno mundo, não quer dizer que eu seja uma pessoa mais ou menos especial, eu apenas sou. Seja lá o que você acha. Somente eu sei sobre mim.
E talvez esse texto nunca tenha sido uma merda, afinal.

2 comentários:

IASMIM SANTOS
LAYOUT POR LUSA AGÊNCIA DIGITAL