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25 de março de 2019

@zeze

via reprodução google
Na maioria das vezes as noites são frias, e eu já me acostumei com o medo.
Eu nunca sei quando vai ser o meu último dia, sabe, então eu vivo cada dia como se fosse o último mesmo, me apego às pequenas coisas que vejo ou que me veem, como um pombo que se aproxima para comer os farelos dos farelos que eu como, ou quando alguma criança me olha com um olhar de pena.

Certa vez, uma menina andava de mãos dadas com a mulher que devia ser sua mãe ou tia, irmã, não sei. Elas passaram por aqui e a menina cochichou alguma coisa com a mulher, quando me viu, tirou um ursinho da bolsa e me deu. Foi meu primeiro e único brinquedo. Agradeci a ela e baixei a cabeça, escondendo as lágrimas que escorriam no meu rosto. Ele era rosa, com um casaquinho branco e coraçõezinhos rosas. Hoje ele está bem surrado, sujo e fede um pouco. Coisas que não me incomodam, porque esse também é o meu estado atual.

Às vezes, se eu der sorte, consigo que alguém me veja, me perceba, e não me ignore como a maioria das pessoas fazem, como aquela moça que trabalhava na padaria aqui perto, e toda vez que ela saía do trabalho, desde que ela me viu, ela me trazia algum pão e um suco ou água, como as outras vezes em que ela sentou comigo e leu pra mim, me trouxe um casaco, e dias depois começou a me ensinar a ler e escrever. Faz muito tempo que não a vejo.

Então, as minhas noites tem sido mais frias do que antes, já que um dos caras que vive na rua, acabou roubando meu casaco, as últimas semanas têm sido de bastante chuva, e o papelão só ajuda quando está seco.

Sempre que rezo, converso com Deus e pergunto a Ele porque as coisas são dessa forma, como tantas pessoas podem ter tanto ou ter alguma coisa, e eu não ter nada... Uma casa, com uma cama aconchegante, um travesseiro e o carinho de alguém que pudesse me proteger e me curar de todas as coisas que o mundo já me fez.

Mas, eu só observo o brilho das estrelas ou os raios do sol e agradeço a Ele por ter enfrentado mais um dia, ou por ter conseguido passar a noite salva e poder acordar, porque muitas pessoas não puderam usufruir dessa dádiva.

Sinto o estômago reclamar mais do que o normal, a última vez que comi algo foi hoje de manhã bem cedo, junto com os pássaros na praça. Reviro o grande balde de lixo, procurando algo para comer, encontro uma caixinha de suco de laranja, que por sorte ainda tem um pouco do líquido, e restos de algum lanche que deveria estar muito gostoso quando foi preparado.

Como, sinto o estômago reclamar, e tomo o suco, para molhar a boca e fazer os pedaços do pão descerem pela garganta com menos dificuldade, porque embora eu já esteja acostumada com a minha realidade precária, meu corpo sabe que eu não mereço tudo isso, as coisas não deveriam ser injustas dessa forma.

Sinto umas gotas d'água molharem meu cabelo, nariz e ombros, olho para o céu e percebo que vai chover, preciso encontrar algum lugar para me abrigar, algum lugar que deveria ser um lar, uma casa, com um teto, portas e janelas para me proteger dos perigos da rua, todos os que já sofri, os que conheço e aqueles que peço a Deus para nunca precisar conhecer.

Será que um dia tudo isso será diferente? E se eu não alcançar essa diferença tão esperada, espero que esse mundo justo e melhor possa existir um dia, por todos os outros que também estão nas ruas, arranhando a superfície da sociedade, sofrendo, com frio e fome, famintos por uma realidade boa para todos. Como eu também estou.


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P.s: Eu conheço a Zeze desde 2013, ela é uma personagem que eu criei para uma apresentação teatral que tinha como tema as mazelas dos moradores de rua.
Tive a experiência incrível de interpretá-la e abri a peça de teatro (A Rua da Vida) comendo lixo, óbvio que era um lixo que eu mesma tinha "preparado", fora o terceiro e último dia de apresentação em que colocaram lixo de verdade e eu quase vomitei no palco, mas engoli tudo do mesmo jeito.

P.s2.: Você está lendo um texto do projeto MONDAY - Conte sua história e ela virará poesia.
Vocês podem me mandar um email: iasmim.luce@hotmail.com
Ou falar comigo na página do Facebook: Escritora Iasmim Santos
Vou adorar ouvir e escrever sobre a história de vocês!

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