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Sobre sentimentos e queimaduras de terceiro grau

6 de abril de 2019


Você pode ler ouvindo Ed Sheeran - One

Eu preciso escrever, porque eu tenho postergado os meus sentimentos sobre você há muito tempo. Posso sentir como meu peito vai ser castigado, antes mesmo de ter começado. Porque quando você aceita o que sente, você opta por tudo, inclusive as consequências. Quando você brinca com fogo, por mais hábil ou expert que seja, em algum momento você vai se queimar.

A sensação, nos últimos dias, foi como estar queimando dentro de uma caixinha, como a teoria do gato de schrodinger, em que você não sabe se o gato está vivo ou morto até abrir a caixa, e ele permanece nesse meio termo, até que alguém o faça. E eu abri. Só pra me ver, com os meus sentimentos queimando nas minhas mãos, totalmente expostos, e, aos poucos, virando cinzas.

É como se eu estivesse fora do meu corpo, me olhando deitada, dançando suavemente com as mãos no ar, como se visualizasse meus sentimentos candentes, e sentisse o fogo já afetando a minha derme, e mesmo que doesse, queimasse e machucasse muito, eu sentia exatamente tudo o que aquilo me causava. Eu sentia tudo.

Mesmo que todos os meus sentimentos e expectativas possam ser levadas pela minha simples e lenta expiração, eu o faço profundamente e me permito, depois de dias me mantendo ocupada o bastante para não pensar sobre, sentar aqui e escrever. Porque escrever é a minha forma de diminuir a dor que rasga meu peito, e mesmo que eu tenha deixado-a em modo mudo por um tempo, ela insistia gritar no meu inconsciente.

Eu tenho talento em superar, sabe. Mas, também sou proficiente em preservar lembranças como faíscas, se você estalar os dedos duas vezes, meus sentimentos estão acesos novamente. Isso é muito sobre quem eu sou, a forma como as pessoas me marcam, e a importância que dou a cada uma delas. 

E você me marcou. Muito. As coisas são muito recentes, embora nós nunca tenhamos sido nada. Quer dizer, nós fomos alguma coisa indefinida, louca e boa, que nunca nos permitimos viver, decifrar, muito menos contar a ninguém. Nós fomos alguma coisa, e não acredito que somente eu sinta isso tudo dessa forma.

Hoje, eu sou obrigada a te ver e segurar a minha vontade de te abraçar forte, sentar e conversar sobre a vida. Preciso segurar meus sentimentos, jogar um balde de água fria ou  tomar algum vinho ou drink de martíni, com bastante gelo, só para não demonstrar como me sinto sobre o tudo e o nada que nós dois fomos. E, como sabemos, o álcool não controla o fogo, então eu continuo em chamas, com o telefone na mão, a voz um pouco mais grave por conta do choro entalado na garganta, e o teu número na tela, pronta para discar.

Mas, eu não o faço. Porque o sentimento intenso e puro que sentia por você se transformou em um nó na minha garganta, enquanto tento não chorar, pois o fato de você ter fugido sem me dar uma chance para uma conversa, me deixou com inúmeras dúvidas e suposições sobre quem você realmente era e até que ponto as coisas eram verdadeiras ou não, e isso eu não estou falando sobre as histórias que inventei inspirada em nós dois e no expecto do que poderíamos ser.

Estou falando sobre se você foi realmente sincero, verdadeiro, e não mais um cara como todos os outros, e aparentemente a segunda opção é a certa, e ainda assim, quem eu sou continua gritando que talvez, somente talvez, você tenha sido real e inteiro para mim como eu fui para você. Porque é mais bonito acreditar nisso, embora a realidade esteja batendo forte na minha cara.

Me mostrando que não, que a minha ingenuidade que me faz sempre acreditar no melhor das pessoas me deixa cega, às vezes, e eu não deveria te ligar, nem procurar você, por isso eu escrevo, porque é uma forma de mostrar a minha intenção e o motivo de não fazê-la real. 

Diferentemente das vezes que quando penso em você, fecho os olhos, respiro fundo e peço aos céus que levem do meu peito para o teu o que eu sinto, pra ver se diminui aqui e você sente um pouco do que tenho sentido, sabe. Como das vezes que fiz você viajar com as coisas que escrevi, com os personagens que inventei sobre nós dois e te mostrei todas as nossas possibilidades, e, finalmente, nos transformamos em nada.

Eu escrevo para não te mandar mensagem falando sobre como os últimos dias têm sido difíceis, que a minha indiferença e frieza é somente uma proteção porque, no fundo, eu sinto que ainda posso me queimar e me machucar mais, isso pelo motivo de você está afetando a minha hipoderme, sem nunca ter tocado a minha epiderme.

E eu quis tanto, sabe. Ter descoberto o que podíamos ser, porque nós sempre tivemos o feeling e muito potencial. Como quando você me inspirava e me inspira agora, como você incentivou a ser eu mesma, sem ter medo, como eu tinha antes de você me encorajar. Como você aceitava quem eu era e a forma que os meus sentimentos saltavam pra fora de mim, o teu olhar era de admiração por conhecer alguém assim.

A vida é feita de momentos que marcam e mudanças drásticas de quem éramos e passamos a ser depois de alguma coisa, sabe? Tipo a história da Lou do livro "como eu era antes de você"? O impacto é quase o mesmo, como se existisse uma de mim antes e depois de você, e parafraseando a Jojo Moyes: eu me sentia melhor quando você estava por perto, me sentia mais quem eu queria ser.

Mas, eu não sei mais quem eu sou depois de você, porque estou machucada demais para pensar sobre isso agora. Só preciso falar sobre o nosso durante, porque eu gostaria que você estivesse na minha sala de jantar, tocando o violão para mim e me fazendo cantar músicas que falam muito sobre os sentimentos que tenho, eu queria te olhar e ver você olhando de volta, sorrindo com os olhos e me mordendo com o sorriso.

Gostaria de voltar aos primeiros dias, quando nos falávamos o tempo todo e tudo parecia tão simples, inclusive quando estava muito complicado em casa, e você era meu porto seguro, e ficava comigo no telefone por horas, tocando ou violão ou a guitarra pra mim, tentando me acalmar, e esse era o melhor carinho a distância que alguém já tinha me dado.

Como em pouco tempo, nossas conversas se tornaram profundas e espontâneas, como da vez que tomávamos sorvete e pensávamos sobre detalhes como a colherzinha com a minha cor favorita, que o sabor do sorvete era "menina bonita", o meu predileto por causa de todas as sensações que ele causa... e logo após conversávamos sobre as pessoas e a forma como as vemos no mundo. Simples assim, sabe.

Ou quando não precisávamos falar nada, só existir ao lado um do outro, como naquela noite fria, em que ficamos sentados por quase uma hora, sem dizermos absolutamente nada, só pensando nas coisas que tinham acontecido e eu estava grata em poder estar com você, pois diante os fatos da noite, o único lugar seguro pra mim, naquele momento, era do teu lado.

Como da vez que comemos torta de chocolate com suco de cacau, e pouco tempo depois você começava me ouvir sobre como as coisas mudam quando crescemos, e comento sobre a minha avó e como sempre fui muito apegada a ela, e você afirma com a cabeça, porque você lembra bem. Então eu te ouço falando da sua avó e como sente falta dela, e eu te digo que não imagino o mundo sem a minha, porque ela sempre esteve aqui pra mim.

Mas, você também estava. E agora não mais.

E eu gostaria de terminar esse texto, contando sobre como tenho esperanças de que, um dia, você volte, para continuarmos de onde paramos e poder, enfim, esclarecer tudo o que não sabemos sobre o outro, como isso tem me machucado, queimado até as minhas cordas vocais e isso não me impediu de compor uma música sobre você.

Tudo isso é sobre saudade e como ela arde, e como provavelmente só arde assim em mim, porque talvez eu não tenha te marcado da mesma forma que você me fez. Porque você, infelizmente, é mais um como todos os outros que já conheci, e a pessoa ativa, intensa e ardente da história sempre foi eu, e quem fez você da forma que você era, foi eu mesma, minha mente e meu coração, porque era tudo sobre o jeito que eu te via e o potencial que enxerguei em você.

Eu permiti e aceitei que você fosse o personagem principal da minha história por todo esse tempo, sou grata por todos os sentimentos que pude experimentar e como pude perceber que eles são mais intensos que antes.  Visto que as minhas faíscas vulgo minhas lembranças se transformaram em chamas, talvez eu esteja necrosada por conta disso tudo. E nós nunca fomos nada.

Eu gostaria de terminar dizendo que, em algum lugar dentro de mim, se você olhar direitinho, eu ainda acredito em você e que, provavelmente, eu te ligue daqui há algumas horas, pondo a culpa no álcool e te fale sobre essa carta e como doeu escrevê-la, em especial porque nunca vou te entregar e, somente no fim da ligação, depois de ter chorado tudo o que tenho segurado nas últimas três semanas, eu assuma estar sóbria e machucada demais para não te contar.

Mas, eu só fecho a caixa, sentindo a superfície quente, esperando que na próxima vez que eu a abra, o gato esteja morto. Porque o meu celular está tocando e não, não é você, e porque estou ferida demais para aceitar que eu continue assim e porque o martíni já subiu a cabeça e estou altinha demais para pensar claramente sobre qualquer coisa.

Mesmo que eu ainda veja você.
Queimando.
Dentro de mim.

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IASMIM SANTOS
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