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Em homenagem a tudo aquilo que eu não pude sentir #2

28 de novembro de 2019

/Reproduction Pinterest

Você pode ler ouvindo Selena Gomez - Back To You (Acoustic)


Escuto o telefone da sala tocando, e acordo assustada.
Sento na cama, vejo o Sol entrando pela janela do meu quarto, e tento entender o que aconteceu: eu havia sonhado mais uma vez.

Existem inúmeros sentimentos dentro de mim, e eu consigo lidar com todos eles, o que eu não suporto é quando apenas um, em específico, faz questão de fazer morada no meu peito, diminuindo, inclusive, o fato de que existem todos os outros.

Não gosto quando isso acontece, porque além de ser pega de surpresa, eu fico torpe por tempo indeterminado. Da última vez, foram cinco dias seguidos.

Desse vez, eu fui pega ontem a noite, pode ter sido porque noites chuvosas lembram muito as que eu passei com ele, ou como o frio parece tão mais forte quando ele não está aqui, pode ter sido uma mistura de tudo... principalmente, porque eu o vi, no finzinho da tarde, bebendo uma cerveja com alguns amigos, e eu nem sabia que ele estava na cidade.

Eu já sentia falta dele antes, sabe. Nos primeiros dias, quando ele foi embora, era ensurdecedor, mas sabemos os milagres que o tempo (e muitas garrafas de Cortezano) pode fazer. Quando eu o vi, com seu cabelo preto bagunçado e sua barba por fazer, rindo de alguma coisa que alguém falou, senti como se um arranha-céu surgisse bem no meio do meu peito, rasgando as camadas da minha pele, machucou tipo assim.

Então, eu tomei banho com todas as nossas lembranças na minha cabeça: as vezes que dançamos juntos na sala do seu apartamento, com as luzes apagadas, ou todas as conversas que tivemos na janela do seu quarto, vendo as estrelas e sentindo a brisa da noite no meu rosto, com as mãos dele enroscadas na minha cintura, e sua boca pertinho da minha orelha.

Quando sentei na mesa para jantar, eu olhei a xícara do café e vi claramente cada uma das nossas noites mais difíceis, as nossas discussões, como elas eram foda, e como sempre ficamos mais fortes quando nos reconciliávamos, porque esses momentos eram cruciais para percebermos o quanto gostávamos um do outro.

Eu tentei fazer as coisas que eu precisava fazer: abri o notebook para continuar escrevendo o artigo que o jornal solicitou, mas, eu me senti tão cansada emocionalmente, que não me atrevi a escrever sequer um parágrafo. Tentei ler alguma coisa que me fizesse sentir algo que não fosse isso que sinto por ele, peguei a guitarra que um amigo emprestou e comecei a tentar algo, falhei em todas as minhas tentativas de fugir de mim mesma.

Então, quando deitei para tentar dormir, eu fiquei encarando o teto do meu quarto, e deixei que aquilo me atingisse de vez: eu ainda sentia muito. Não apenas sinto muito porque ainda tem muita coisa aqui quando se trata dele, é como se ele tivesse ido embora e deixado todas as suas roupas no guarda-roupas, e o seu lado da cama bagunçado só para eu saber que ele estaria aqui, em breve.

Mas, eu sinto muito porque, se eu soubesse que o nosso "pra sempre" acabaria tão cedo, eu teria aproveitado mais. Eu extrapolaria. Seria exagerada, como o Cazuza canta, só não estaria jogada aos pés, mas sim no colo dele, sentindo cada tracinho da sua pele e como sou eletrizada pelo seu toque e como as suas mãos adentrando no meu cabelo me fazem desmontar inteirinha.

É tudo tão incrível porque, ao mesmo tempo que posso ser eu mesma, forte e inquebrável, cada pedacinho meu se desfaz por ele, e não há nada mais delicioso do que ser verdadeira assim, e eu só pude com ele, porque eu nunca confiei em ninguém dessa forma, muito menos depois dele.

Quando ele foi embora, fizemos questão de não nos despedirmos, primeiro porque estávamos muito machucados um com o outro, porque a gente sabia que essa brincadeira de fingir que não sente nada, e que era tudo sobre amizade colorida, acabaria assim, mas ainda assim nós continuamos. Segundo, porque machucaria mais ainda ter que nos beijarmos, conscientes de que era o nosso último beijo.

(Continua)

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IASMIM SANTOS
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