15 de fevereiro de 2021

Depois de tanto tempo, ainda somos os mesmos

0 comentários
Ashley e Ian (on Pinterest)


Você pode ler ouvindo Taylor Swift - Love Story (2021)


Faziam anos desde a última vez que tínhamos nos visto. Eu não esperava que te rever fosse tão intenso e devastador como foi. A sensação era de estar sendo esmagada pelas cinzas de um milhão de borboletas, as mesmas borboletas que eu deixei queimar dentro de mim, só para assisti-las morrendo.

Você estava usando seu jeans apertado e camiseta verde, e eu o meu melhor vestido. O seu perfume ficou em mim, assim como ficou incontáveis vezes antes.

As palavras, risadas, abraços e beijos, cada lembrança, uma a uma, foram me pegando, com a mesma intensidade de uma primeira vez, com a boca, o sorriso, braços e lábios de alguém que eu nunca deixei de conhecer.

Da mesma forma que nossos bons momentos vieram, eu fui bombardeada com nossas lembranças ruins... as brigas, discussões, os choros, o colo que nunca vinha, o abraço que faltava, o carinho de dedo que fazia uma enorme diferença, as palavras que não dizíamos ou as que falávamos sem pensar... o pôr do sol quase foi coberto de nuvens negras... até você sorrir e fazer um cachinho numa mecha do meu cabelo, brincando que nunca imaginou que fosse me ver ruiva.

E eu te disse que a gente nunca imaginou muitas coisas, muito menos que estaríamos vendo um pôr do sol, na Barra, ouvindo jazz ao vivo e bebendo um vinho que não custe somente quinze reais. Você sorriu e eu pude notar como suas covinhas ainda guardam seu sorriso, e seus olhos continuando brilhando mais ainda quando você ri.

Você lembra aquele dia que sentamos, um ao lado do outro, no ônibus do colégio e dividimos os fones de ouvido? Eu te mostrei minha nova música predileta, e você ouviu, com aquela cara de nojinho infantil, por estar ouvindo uma música melosa, mas você me disse que a música era linda, mesmo que as únicas palavras que tinha conseguido entender foram “love”, “Romeo” e “Juliete”.

E, por coincidência ou não, ontem quando eu peguei o caminho de volta pra casa, eu conectei o spotify ao som do carro, e a mesma música, que ouvimos doze anos atrás, estava no primeiro lugar dos lançamentos da semana: Taylor Swift regravou “love story” e a minha eu adolescente chorou silenciosamente, enquanto sentia os batimentos cardíacos na garganta.

A verdade é que fazia muito tempo que eu não me reconhecia quando me olhava no espelho, e quando conversamos ontem eu pude admitir sentimentos que eu passei muito tempo empurrando pra debaixo das cinzas das borboletas que viviam intensas, ardentes e brilhantes dentro de mim.

Eu pude me admitir como eu realmente sou. E me olhar no espelho agora, e ver cada um desses momentos refletidos ali, é como estar dentro de uma redoma com todas essas lembranças em volta de mim. 

Eu quase ouço a música tocando e sinto meus pés saindo do chão, da mesma forma que você fez ontem. As flores no meu vestido longo lilás perfumaram a praia quando você pegou minha mão e me fez dar uma volta, tirando meu melhor sorriso.

Você me falou sobre como vida tomou um rumo totalmente diferente do que você esperava, mesmo que cada uma das decisões tenham sido tomadas por você, e eu te disse que, às vezes, a gente escolhe coisas pensando demais, quando deveríamos ouvir o coração.

E quando começou a falar sobre todos os erros que tinha cometido, e que se pudesse voltar no tempo e fazer as coisas diferentes, você faria, eu apertei suas mãos e te disse que:

Se a gente não tivesse vivido tudo o que vivemos, nós não estaríamos aqui. E é isso que deveria importar.