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Em homenagem a tudo aquilo que eu não pude sentir #3

29 de novembro de 2019

/Reproduction Pinterest




Essa é a quarta vez que o telefone toca desde que acordei. Passo direto pela sala até a cozinha, ligo a cafeteira, e volto para atender o telefone.

- Alô?! - Digo.
- Finalmente. 
Escuto a voz já um pouco impaciente, e penso se escutei bem:
- Quem é?
- O Heitor. Não reconhece mais minha voz?
Quanta saudade. Penso.
- Quanto tempo. - Falo, indiferente, fingindo que o coração não tá pulsando na garganta.
Ele fica calado, e meu coração bate descompassado.
- Oooi? - Espero alguma resposta, mas não tenho nada.

Escuto alguém bater na porta.

Puta que pariu! Ele não tá fazendo isso! 
É exatamente a cara dele fazer isso. Clichê e previsível. Se eu ainda o conheço bem, assim que eu abrir a porta ele vai abrir os braços, com o corpo todo sorrindo, gritando por um abraço.

Vou correndo ao banheiro, escovo os dentes o mais rápido que posso, e tento domar a minha juba: amarro um coque -  ai não, ele sempre falou que quando faço coque no cabelo fica parecendo um coco na cabeça. Enxáguo a boca, mordisco o lábio, solto o cabelo e volto até a porta.

- Você é tão previsível! - Digo, abrindo a porta, tentando não parecer nervosa.
Sou surpreendida quando o Heitor se aproxima já me beijando e me guiando pra dentro de casa. Ele fecha a porta, e me pressiona na porta, com a mão esquerda no meu quadril e a direita no meu queixo.
- Você acha que é assim? - Tento falar, entre um beijo e outro. 
Então, eu simplesmente desligo a mente, e sinto-o com todo coração. 

Finalmente.
Agora eu entendo porque ele estava impaciente no telefone, não foi por ter ligado algumas vezes e eu não ter atendido, mas, porque uma parte dele também se sentia como eu.

Se esse for o nosso último beijo oficial, eu quero guardar cada segundo que puder.
Sinto seus lábios que continuam macios, como antes, o seu beijo mais ardente e ansioso, da mesma forma que o seu toque. E eu o beijo como se fosse a última vez. Com todo o sentimento que há dentro de mim, e com todo o desejo que esteve reprimido por todo esse tempo, e eu nem vou ligar se ele me levar para meu quarto sem sequer conversarmos direito.

- Estava com tanta saudade de você. - Ele diz, olhando dentro dos meus olhos. E eu sinto a verdade em cada letra dessa frase, porque quando olho pra ele, não vejo ou sinto nada mais além do que saudade.
- Eu também estava. Com muita saudade de você. - Eu digo, pausadamente, porque todo o sofrimento, as feridas e machucados ainda estão aqui, e eu preciso passar por cima de cada uma dessas coisas para abrir meu coração.
- Eu fui um covarde. Nem quis me despedir de você. Mas, não passei um dia sem pensar em você.
- Mesmo nos dias que comia alguma menina?
- Principalmente.
- Por que "principalmente"?
- Elas não eram você. 
- Incrível como você tem tudo na ponta da língua! - Falo, rindo um pouco. - Você é tão clichê. 
- Eu sei, estou bem resolvido com isso. Mas, estou sendo sincero. Você, por acaso, coou algum café que me deu com alguma calcinha sua?
Beijo ele, rindo alto.
- Você aceita um café? - Pergunto, pegando na sua mão e puxando-o para a cozinha.
- E muito mais! - Ele fala, com um sorriso mordido, e dando um tapinha na minha bunda. O que me faz lembrar que estou usando uma das t-shirts que ele deixou aqui.
Ele pega as xícaras e coloca na mesa, enquanto eu pego a jarra da cafeteira e coloco na mesa.
- Que plantinha linda. - Ele diz, vendo a minha planta no centro da mesa.
- É a kalanchoe, ganhei de aniversário.
- E como estão as coisas? 
- Ótimas, na verdade. Sou colunista em um jornal aqui da cidade, já escrevi mais dois livros, e vou publicar mais um esse ano.
- Em qual desses livros eu estou? - Ele pergunta, rindo.
- Em todos. - Respondo, sincera, olhando o vaporzinho do café subindo.
- E que novidade é essa? - Ele pergunta, levantando e pegando a guitarra, em suportezinho que coloquei na parede da cozinha.
- Já tinha passado da hora de eu tentar.
- Concordo. - Ele diz, olhando pra mim, com os olhos sorrindo.
- E como está tudo contigo? Onde você estava morando?

Ele balança a cabeça, sorrindo, fazendo que agora não, e começa a tocar e cantar a música Gravity do John Meyer.

Eu o observo, tão lindo e sedutor quanto antes, o timbre da sua voz sempre ficou ainda mais gostoso quando ele canta, e uma das coisas que mais me excita nele (quando ele não está me beijando e ou acariciando o meu corpo) é quando ele canta pra mim.

Corto um pedaço do bolo que está na mesa, para tomarmos café, mas, ele parece ter tido alguma ideia muito boa enquanto tocava a guitarra, e então pega na minha mão e me aproxima. Eu olho para ele, e percebo que ele está olhando pra minha boca.
- Vem aqui. - Sussurro.

E ele se levanta e me beija, tirando a minha camisa, e eu posso sentir o seu corpo ficando mais quente.



Droga.
Eu sonhei mais uma vez.
Bem que eu podia ter levado ele direto para o quarto, logo quando ele chegou.

Em homenagem a tudo aquilo que eu não pude sentir #2

28 de novembro de 2019

/Reproduction Pinterest

Você pode ler ouvindo Selena Gomez - Back To You (Acoustic)


Escuto o telefone da sala tocando, e acordo assustada.
Sento na cama, vejo o Sol entrando pela janela do meu quarto, e tento entender o que aconteceu: eu havia sonhado mais uma vez.

Existem inúmeros sentimentos dentro de mim, e eu consigo lidar com todos eles, o que eu não suporto é quando apenas um, em específico, faz questão de fazer morada no meu peito, diminuindo, inclusive, o fato de que existem todos os outros.

Não gosto quando isso acontece, porque além de ser pega de surpresa, eu fico torpe por tempo indeterminado. Da última vez, foram cinco dias seguidos.

Desse vez, eu fui pega ontem a noite, pode ter sido porque noites chuvosas lembram muito as que eu passei com ele, ou como o frio parece tão mais forte quando ele não está aqui, pode ter sido uma mistura de tudo... principalmente, porque eu o vi, no finzinho da tarde, bebendo uma cerveja com alguns amigos, e eu nem sabia que ele estava na cidade.

Eu já sentia falta dele antes, sabe. Nos primeiros dias, quando ele foi embora, era ensurdecedor, mas sabemos os milagres que o tempo (e muitas garrafas de Cortezano) pode fazer. Quando eu o vi, com seu cabelo preto bagunçado e sua barba por fazer, rindo de alguma coisa que alguém falou, senti como se um arranha-céu surgisse bem no meio do meu peito, rasgando as camadas da minha pele, machucou tipo assim.

Então, eu tomei banho com todas as nossas lembranças na minha cabeça: as vezes que dançamos juntos na sala do seu apartamento, com as luzes apagadas, ou todas as conversas que tivemos na janela do seu quarto, vendo as estrelas e sentindo a brisa da noite no meu rosto, com as mãos dele enroscadas na minha cintura, e sua boca pertinho da minha orelha.

Quando sentei na mesa para jantar, eu olhei a xícara do café e vi claramente cada uma das nossas noites mais difíceis, as nossas discussões, como elas eram foda, e como sempre ficamos mais fortes quando nos reconciliávamos, porque esses momentos eram cruciais para percebermos o quanto gostávamos um do outro.

Eu tentei fazer as coisas que eu precisava fazer: abri o notebook para continuar escrevendo o artigo que o jornal solicitou, mas, eu me senti tão cansada emocionalmente, que não me atrevi a escrever sequer um parágrafo. Tentei ler alguma coisa que me fizesse sentir algo que não fosse isso que sinto por ele, peguei a guitarra que um amigo emprestou e comecei a tentar algo, falhei em todas as minhas tentativas de fugir de mim mesma.

Então, quando deitei para tentar dormir, eu fiquei encarando o teto do meu quarto, e deixei que aquilo me atingisse de vez: eu ainda sentia muito. Não apenas sinto muito porque ainda tem muita coisa aqui quando se trata dele, é como se ele tivesse ido embora e deixado todas as suas roupas no guarda-roupas, e o seu lado da cama bagunçado só para eu saber que ele estaria aqui, em breve.

Mas, eu sinto muito porque, se eu soubesse que o nosso "pra sempre" acabaria tão cedo, eu teria aproveitado mais. Eu extrapolaria. Seria exagerada, como o Cazuza canta, só não estaria jogada aos pés, mas sim no colo dele, sentindo cada tracinho da sua pele e como sou eletrizada pelo seu toque e como as suas mãos adentrando no meu cabelo me fazem desmontar inteirinha.

É tudo tão incrível porque, ao mesmo tempo que posso ser eu mesma, forte e inquebrável, cada pedacinho meu se desfaz por ele, e não há nada mais delicioso do que ser verdadeira assim, e eu só pude com ele, porque eu nunca confiei em ninguém dessa forma, muito menos depois dele.

Quando ele foi embora, fizemos questão de não nos despedirmos, primeiro porque estávamos muito machucados um com o outro, porque a gente sabia que essa brincadeira de fingir que não sente nada, e que era tudo sobre amizade colorida, acabaria assim, mas ainda assim nós continuamos. Segundo, porque machucaria mais ainda ter que nos beijarmos, conscientes de que era o nosso último beijo.

(Continua)


Em homenagem a tudo aquilo que eu não pude sentir #1

27 de novembro de 2019


/Pinterest Reproduction



Eu queria ter chorado mais. Ter aproveitado o seu colo e o seu abraço, por todas as vezes que engoli o choro, quando podia ter desabado e me deixado ser acolhida por seus braços, que sempre me trouxeram segurança e fizeram-me sentir em casa.

Eu queria ter aproveitado cada pequeno segundo do seu lado.
Gostaria que eu tivesse percebido a imensidão que cada milésimo se tornava toda vez que você estava aqui comigo.

Eu queria ter gravado o som da sua voz, para que sempre que eu sentisse sua falta eu pudesse reproduzi-lo, para sentir um pouco o seu timbre próximo a minha orelha.
Eu queria que você tivesse sussurrado o meu nome no meu ouvido, porque quando você me chama, reaviva cada molécula que existe em mim, e eu queria lembrar de ser viva assim. Como era quando você estava aqui.

Eu queria ter beijado mais. Por todas as vezes que eu sonhei com o gosto dos seus lábios.
Ou por todas as vezes que não pude beijar você.

Eu queria ter ficado contigo, ao invés de te enviar uma mensagem de texto, falando sobre como eu faria qualquer coisa para estar com você agora. Eu queria ter ficado.

Pra mim, naquele momento, estava tudo bem manter a pose, fingindo que nada acontecia, e postergando cada sentimento que queimava no meu peito. Estava tudo bem. Mas, não agora.
Não aqui, nessa noite chuvosa e com toda a inspiração de escrever o que ninguém sabe, nem imagina, muito menos vai saber um dia.

Mesmo que eu seja tão intensa e entregue, eu já mastiguei tantos sentimentos a seco, no frio, e eles estão transbordando agora pra fora de mim: torrenciais e fortes.

A parte mais difícil é lembrar do castanho-mel que seus olhos têm e como eles adornam perfeitamente com seu sorriso cheio de intenções, e sua sobrancelha direita erguida. Eu lembro do seu olhar tão nitidamente que quase sinto você me olhando de volta. Mas, então eu sou bombardeada com todos os motivos para "não", é como se tivesse me tornado um saco de pancadas, em alguma academia cheia de lutadores prontinhos para me cobrir.

Logo eu, que sempre fui tão intensa e entregue, nunca imaginei que escreveria uma carta tão cheia de desejos e vontades reprimidos, mas aqui estou. Isso me faz lembrar das poucas vezes em que vi você tocando violão, e como me machucava por dentro, querer ser eu quem estava sendo tocada por você. Não sei o que é pior: sofrer por algo que nunca teve, ou por algo que não pode nunca mais ter.

Eu lembro da sua expressão quando te perguntei se ainda estávamos nos divertindo: era a mesma minha, sabíamos que não e que, se continuássemos, nos machucaríamos muito. Mas, nenhum dos dois estava disposto a se deixar ir. Porque, embora você nunca tenha sido de admitir, você também é sentimento igualzinho a mim.

É exatamente por esse motivo que pego o celular e ligo para você:
Dane-se que são quase uma da manhã, dane-se que amanhã você trabalha cedo. Eu só quero saber que você tá aí, do outro lado, me ouvindo chorar e respirando fundo porque eu te acordei, você está muito cansado, mas está aqui comigo.

- Eu sou um saco, não é? - Pergunto, tentando engolir o choro.

- Eu faria qualquer coisa pra estar com você agora. - Você diz.

(Continua)
IASMIM SANTOS
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